
(Na eventualidade de você não saber do que estou falando, esse é um resumo do MTV Banda Antes Apresenta: Tour Independente, viagem de ônibus que Ecos Falsos, Rock Rocket, Faichecleres, Vanguart, Daniel Belleza e Zefirina Bomba fizeram em julho de 2006 e que será transmitida em seis programas pela MTV em outubro)
Eu ia dizer “relato sentimental”, mas o caso é que a gente não se fodeu nessa viagem. Pelo contrário. Foi bem mais difícil fazê-la acontecer do que fazê-la de fato, apesar do medo que algo pudesse dar errado no caminho. Mas o busão foi, chegou, tocamos em sete cidades do Nordeste e voltamos após duas das semanas mais importantes de nossas vidas.
Os dois dias de São Paulo até Recife foram os mais chatinhos de encarar no ônibus. Mas como era começo de viagem, não foi nada que cachaças de estrada, violões e DVDs não dessem conta de tornar suportável. Chegamos atrasados à primeira parada por conta de algum Speed Porco ter jogado uma pedra no vidro do motorista, lá pelos lados de Vitória da Conquista, o que acarretou bolentins de ocorrência e troca de veículo. Bom ou mau presságio? Não sabíamos dizer.

Não deu tempo de passear muito em Recife: deixamos as coisas no Hotel Central e fomos ver o Armazém 14, que muito me lembrou o Cais do Porto no Rio de Janeiro (tinha até navio do lado). Espaço grande, teto alto, palco lindo: ficamos animados. Depois de uma “palestra” meio nonsense na Livraria Cultura, comemos um rango qualquer e rumamos para o show, que já contava com um burburinho considerável na entrada. Nossos amigos da Volver tiveram a incumbência de abrir a noite, e coube aos Ecos Falsos o show que iniciaria, de fato, a temporada dos 42 da turnê (6 bandas X 7 cidades).
O público ainda não tinha todo chegado, nem estava se sentindo à vontade para colar no palco ainda. Para a sorte das primeiras impressões, superamos o nervosismo da estréia e fizemos uma apresentação bem coesa, aproximando a platéia a cada música que terminava. No fim subiu até gente no palco, sucesso! Uma jornalista classificou a gente como “banda adolescente” após transcrever (errado) uns versos das músicas que ouviu, mas tudo bem, estávamos eufóricos mesmo e entregamos a galera pro Vanguart no ponto. Eles não decepcionaram, nem ninguém – e se essa noite teve pontos altos, foram o show possuído do Zefirina Bomba com Canibal e o caos no palco ao fim de Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, quando todos os presentes (acho que até os seguranças) subiram para cantar.
Ah, a ordem era sempre essa, Ecos Falsos > Vanguart > Zefirina Bomba > Faichecleres > Rock Rocket > Daniel Belleza, com o último de cada show passando pra frente da fila no show seguinte.
Ou seja, em João Pessoa, foi Belleza que começou tocando. O lugar lá se chamava A Base (valeu, Ricco!) e é uma balada maravilhosa em plena praia, com um palco que parece escondido num cantinho mas funciona muito bem à noite. Fiquei impressionado com a quantidade de gente que apareceu, a energia das pessoas ao verem os shows e o tanto que elas conheciam e tinham pesquisado sobre as bandas. Eu seguiria fazendo shows como esse o resto da vida sem reclamar de nada. Foi difícil segurar a onda depois do DBCF, mas fizemos bem pelo visto, foi o lugar em que mais vendemos CDs e camisetas e caixas de fósforo (a gente vende tudo!). Todo mundo mandou bem também, fora que a cidade é muito simpática e pudemos conhecer a família do Ilsom, violeiro do Zefirina. Ele tem uns vinis incríveis, vai aparecer no programa!

Felizes da vida, tivemos outro dia ótimo em Natal, por obra e graça do grande Anderson Foca e seu ótimo DoSol Rock Bar. O único porém foi não ter dado tempo de conhecer a cidade, mas comemos muito bem e fomos recebidos por uma casa cheia de gente que também parecia já conhecer as bandas de cor e salteado. É bom demais chegar num lugar geograficamente distante como esse e ver que as pessoas já conhecem seu clipe, suas músicas, suas piadas e tudo mais! O AllFace, banda de Foca (link aí na direita), fez um ótimo show logo antes da gente, mesmo prejudicados pelo PA mais baixo. E modéstia às favas, fizemos bonito de novo no palco, mesmo com meu rompante de imbecilidade ao falar ao dar boa-noite à cidade errada (as coisas que eu faço bêbado…) O público de lá é tão legal que só me jogou uma latinha por isso, e ainda porque eu pedi! Adoro Natal!

Já em Garanhuns, tivemos momentos de puro luxo no hotel em que ficamos instalados, coisa fina, o mesmo das atrações principais do Festival de Inverno como Nação Zumbi e Magníficos. O Palco Pop ficava num parque imenso, e a giganteza do lance permitiu um dos momentos mais divertidos dos shows – a instalação de duas baterias no palco. Davi tocou com o Zefirina e Guga, do Zefirina, tocou com a gente, foi muito bom. Nosso show foi especialmente engraçado porque o Hélio do Vanguart (melhor imitador de Sílvio Santos da viagem) anunciou a gente como Magníficos, ironia que saiu até no Jornal do Commercio (o mesmo que falou da “banda adolescente”) uns dias depois. No segundo dia, Rock Rocket, Faichecleres e Belleza fizeram o povo dançar mesmo debaixo de uma garoa londrina, foi lindo de se ver. Fora as histórias de bastidores de Garanhuns, que encheriam um DVD inteiro de extras do programa…

Um dia descansando depois, estávamos em Maceió para começar a segunda pernada de shows. Achei a cidade muito bonita, apesar de não ter muito o que fazer lá de quarta à noite. Na quinta tocamos no Mai Kai, um lugar que (depois fomos descobrir) não é muito tradicional para rock alternativo. Isso acarretou no menor público da tour, mas há de se dar o mérito para o ânimo da galera: agitaram até o último show, mesmo depois dos problemas de equipamento e sobriedade do nosso. Essa noite eu estava doidão mesmo, no dia seguinte parecia que tinha sido atropelado na volta para o hotel, mas me diverti pra caramba e conheci algumas pessoas da cidade que menos conhecia da turnê.

Aracaju foi uma coisa fantástica, irreal. Almoçamos no Boa Luz, um hotel-fazenda-parque-temático-aquático-zoológico inacreditável, onde uma das cenas mais antológicas da televisão brasileira foi gravada: Tuba do Faichecleres mamando o leite de uma vaca anã. Nem vou gastar dedo tentando descrever, só vendo no programa mesmo. O local do show, Tequila Café, é muito bacana também, e a galera compareceu em peso. Faiche, Rock Rocket, Vanguart e Zefirina mandaram shows inspirados, mas o nosso, infelizmente, foi prejudicado pelos meus pedais novamente, que cismaram em parar de funcionar do meio pra frente – fora que minha já folclórica indisposição intestinal escolheu esse dia pra atacar. Fizemos o que deu, as pessoas presentes foram muito gentis com a gente, mas sabemos que poderíamos ter feito melhor – e esperamos ter a chance de fazê-lo o quanto antes!
O show de Salvador, por fatos que escapam ao nosso controle, teve que ser cortado da turnê, então tivemos um pouquinho mais de Aracaju no sábado e rumamos para a última parada, Vitória da Conquista. Apesar do tom de confrontamento com os metaleiros que marcou nosso último show lá, por alguma razão eu go
sto de tocar nessa cidade. Acho que é pelo confrontamento mesmo: nesses momentos é que o rock alternativo tem que dar a cara à tapa e peitar quem acha que fora do mainstream só existe hardcore e metal. Enfim, em mais uma loucura do grande Gilmar, agitador quase solitário da cidade, tocamos no anfiteatro do Centro Cultural da cidade, um lugar a céu aberto com capacidade para mais gente do que apareceu de fato – ainda que eu tenha achado o público bom para um domingão.

Quem abriu foram nossos amigos locais do Princípio Ativo, punk de futuro. Vanguart fez um show de sol poente, muito apropriado, Zeferina foi pro confronto armado de viola (que acabou em pedaços), Faichecleres mostrou aquela performance conquistadora que lhes fez famosos, Rock Rocket é um fenômeno de diversão (ainda mais tocando “Search and Destroy”), Daniel Belleza tocou com a cueca do Tuba (isso já diz muito!) e coube à gente a missão de fazer o último dos 42 shows – também gostei da coincidência. Eu já estava bem quebrado da viagem (esse negócio de turnê é desgastante, viu), assim como minha guitarra e meus pedais, que fizeram um último esforço para completar esse show. O público já estava bem cansado da maratona, mas parece que prestou atenção: vêm à minha memória sensações de diversão, dúvida, riso com o Namoro na TV improvisado no palco, confusão com absolutamente todas as bandas subindo no palco pra cantar Findo Milênio, I Wanna Be Your Dog e a versão de War Pigs mais rústica que eu já vi na vida. Sabe aquela sensação de quando você está cruzando a linha de chegada de uma corrida, que você está contente demais por ter chegado ao fim, se joga pra frente e não presta atenção em mais nada direito? Pois então.
Rolou uma discussão depois, justificável, pois haveria uma última banda tocando depois da gente, o Ardefeto. Só posso dizer que nosso show, que nem teve 30 minutos, terminou já no horário que era para o deles estar terminando, antes mesmo da multidão de bandas tomar os instrumentos e tocar as jams finais. Não recebi nenhum aviso para terminar o show antes, só quando a situação estava fora do controle. Enfim, já aconteceu com a gente, ficamos putos também, paciência.
A volta foi tranqüila, tirando a guerra de travesseiros mais violenta de que já participei na vida. Chegamos todos em São Paulo sabendo que tínhamos concretizado uma aventura inédita e totalmente inconseqüente na história do underground brasileiro, que espero que gere frutos pra todo mundo que se esforça em fazer rock de verdade e sem dinheiro nesse país. Um já vai gerar: o programa, que, posso garantir, trará cenas antológicas. Vai ser um registro do esforço e da loucura não só dessas seis bandas (que se tornaram ainda mais amigas depois de tanto tempo juntas), mas também dos produtores e bandas locais, e principalmente do público que sustenta e dá sentido a tudo que nós fazemos.
Tô indo viajar amanhã cedo, fugir (de novo) desse frio monstruoso de São Paulo por umas semanas. A todos que nos conheceram por conta dessa turnê, deixo um grande abraço e convite para navegarem pelo conteúdo do site. Os outros Ecos Falsos seguem in da house, encontráveis no Orkut ou pelo email.
E viva o rock independente!










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