Odeio ter que ficar me explicando, mas se o momento pede, fazer o quê. Na Rolling Stone desse mês (Amy Winehouse na capa), tem uma matéria sobre festivais independentes (leia aqui) que tem um depoimento meu. E pelo que parece, uma porção gente não gostou do que eu disse. Foi isso aqui:
O apoio financeiro – tanto público quanto privado – que os festivais recebem também divide opiniões. “É legal ter patrocínio de lei de incentivo, concorrer edital e depois prestar contas”, comemora Nobre. “Você mostra a transparência. As contas são publicadas no Diário Oficial de cada estado. Para os patrocinadores privados, você deve prestar contas do dinheiro em cima de uma planilha aprovada anteriormente. Senão, no ano seguinte, adeus, patrocínio. Não tem espaço pra sacanagem.”
Já entre as bandas, há quem veja o apoio financeiro com ressalvas. “O que me incomoda é que existe uma linha de pensamento que acha super-legal a gente criar um ‘mercado’ tipo o do cinema, que no fundo não é mercado coisa nenhuma, é festival bancado pelo governo”, opina Gustavo Martins, do quarteto paulistano Ecos Falsos, que já participou de sete festivais da Abrafin. “Acho que, se tem dinheiro público, deveríamos então fazer festival de graça, como o [pernambucano] Rec Beat, ou então ingressos a R$ 3, porque R$ 15 já é caro. Parece que agora ficou impossível fazer show sem lei de incentivo, como também é ‘impossível’ fazer filme sem dinheiro público.”
Eu não tenho o que criticar da Adriana Alves, ela não escreveu nada que eu não disse, mas sinto que esse trecho deu a impressão, errada, que eu me oponho e estou respondendo diretamente às idéias do Fabrício Nobre (pelo menos, que eu saiba, é por isso que meu nome tem sido malhado em discussões virtuais por aí).
Bom, eu dei esse depoimento sem nem saber que o Nobre seria entrevistado para a matéria. Em uma leitura mais atenta, percebe-se que ele está falando de uma coisa (transparência) e eu de outra (política cultural). Nessa relação de oposição, parece que eu estou insinuando que ele não é transparente e que ele pratica o pensamento que eu critico – mas eu não disse nem acho nenhuma dessas coisas!
Fiquei meio surpreso com as reações de quem entendeu a matéria desse jeito, pelo menos as pessoas que sabem que nós sempre apoiamos e elogiamos todos os eventos da Monstro desde 2003 e que, catso, foi a gravadora que escolhemos para o nosso primeiro disco. Mas enfim, cada um lembra do que lhe convém. Eu já falei com o Fabrício sobre assunto.
Quanto aos que ficaram bravos com a opinião em si, admito apenas que o parágrafo resume um assunto complexo, do qual eu falei por mais de uma hora, em pouquíssimas frases, por óbvia necessidade jornalística. Isso acaba fazendo parecer que eu quis ser mais “bombástico” do que fui de fato. Mas, em linhas gerais, é o que penso, por mais que isso possa irritar alguns: a função do dinheiro público não é servir à “cena rock”, sustentar os músicos ou fazer festivais grandiosos (ou, pra manter o paralelismo, fazer filmes caros); a função do dinheiro público é beneficiar o público. Shows baratos me parecem uma forma simples de beneficiar o público. Podem existir outras também. O importante é manter o público em foco, o que não me parece ser o caso em todos os casos.
De resto, só lamento a visão um tanto arraigada de que as bandas têm que ser eternamente gratas a todos os produtores, e que qualquer idéia divergente seja uma “traição”. Os festivais são maravilhosos e os produtores independentes merecem o céu, mas a nossa relação com eles, pelo menos, nunca foi de caridade. Não vejo porque, portanto, não tenhamos o direito a uma opinião – e todo mundo com a mesma opinião, sempre, não é nada rock’n'roll.